Unicef: o cuidado integral e a parentalidade positiva na primeira infância
A forma como cuidamos
das crianças nos primeiros anos de vida impacta toda a sua trajetória. Nos
últimos anos, a primeira infância tem ganhado destaque nas políticas públicas e
nas pesquisas sobre desenvolvimento humano. Nesse contexto, o UNICEF publicou, em 2023, o documento “O Cuidado Integral e a Parentalidade Positiva na Primeira Infância”, que apresenta
diretrizes fundamentais para promover o desenvolvimento saudável das crianças.
O material reúne orientações essenciais para famílias, profissionais e gestores,
trazendo práticas educativas baseadas no afeto, no respeito e no equilíbrio
entre cuidado e limites.
O
documento apresenta um modelo de cuidado voltado ao desenvolvimento pleno da
criança na primeira infância (0 a 6 anos), fase considerada essencial para a
formação física, emocional, cognitiva e social. Esse período é uma “janela de
oportunidades”, pois as experiências vividas nessa fase influenciam toda a vida
futura.
Conheça AQUI NESTE LINK o Letramento Emocional Familiar (LEF) para adultos
Parentalidade positiva
A parentalidade positiva, conforme orienta o UNICEF, refere-se a um conjunto de práticas adotadas por pais e cuidadores baseadas no afeto, no acolhimento e na escuta ativa da criança. Envolve a disciplina sem violência, o estabelecimento de limites com respeito e a presença ativa na vida dos filhos.
Esse modelo educativo busca equilibrar carinho e firmeza, deixando
claro que não se trata de permissividade, mas de uma forma consciente e
responsável de educar. O documento destaca que orientar os pais sobre
comunicação e disciplina positiva contribui significativamente para a redução
de práticas violentas e para a promoção de um desenvolvimento infantil mais
saudável.
Cuidado integral
O desenvolvimento da
criança depende de um cuidado integral, estruturado em quatro pilares
essenciais. O primeiro é a boa saúde, que inclui o acompanhamento desde o
pré-natal, vacinação, consultas regulares e alimentação adequada. O segundo é a
nutrição, fundamental para o crescimento físico e para o desenvolvimento do cérebro.
O terceiro pilar é o cuidado responsivo, caracterizado por relações afetivas em
que os adultos respondem às necessidades da criança com atenção, sensibilidade
e consistência. Por fim, as oportunidades de aprendizagem, que envolvem
brincadeiras, interações, estímulos à linguagem e experiências que favorecem o
desenvolvimento desde os primeiros anos de vida.
Outro aspecto
fundamental é a segurança e a proteção. A criança deve crescer em um ambiente
seguro, livre de qualquer forma de violência. A exposição a situações de
violência na infância pode gerar impactos negativos duradouros no
desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Por isso, a proteção envolve a
prevenção de abusos e negligência, o fortalecimento das famílias e a atuação de
políticas públicas eficazes.
A primeira infância é
um período decisivo para o desenvolvimento humano, pois é nessa fase que ocorre
grande parte da formação cerebral. Experiências positivas contribuem para o
fortalecimento de habilidades cognitivas e emocionais, enquanto experiências
negativas, como a violência e a negligência, podem causar prejuízos
permanentes. Investir nessa etapa da vida significa promover benefícios que se
estendem por toda a trajetória do indivíduo.
Nesse contexto, a
família desempenha um papel central, sendo o principal ambiente de
desenvolvimento da criança. Cabe aos pais e cuidadores oferecer afeto,
segurança e proteção, além de estimular o aprendizado por meio do brincar,
servir como exemplo de comportamento e garantir uma rotina estruturada de cuidados.
No entanto, o cuidado
com a criança não é responsabilidade exclusiva da família. O documento ressalta
a importância da atuação conjunta do Estado e da sociedade, por meio de
políticas públicas integradas e serviços de saúde, educação e assistência social
que apoiem as famílias, especialmente aquelas em situação de maior
vulnerabilidade.
O objetivo do material é orientar profissionais e fortalecer ações voltadas à prevenção de violências, à promoção do desenvolvimento infantil e ao incentivo de práticas parentais saudáveis.
Em síntese, o desenvolvimento pleno da criança
depende da articulação entre cuidado integral e parentalidade positiva,
garantindo que ela cresça em um ambiente de afeto, proteção, estímulo e
respeito, o que favorece a formação de adultos mais saudáveis e preparados para
a vida em sociedade.
Confira
a seguir alguns pontos principais e faça o download do guia para compreender,
de forma mais aprofundada, como orientar crianças na primeira infância.
O
componente de Segurança
e Proteção na infância destaca a importância de prevenir e
enfrentar todas as formas de violência contra crianças e adolescentes, conforme
estabelece a Lei nº 13.431/2017. Essa
legislação organiza e define os diferentes tipos de violência, reconhecendo que
qualquer
ação ou omissão que prejudique o desenvolvimento físico, emocional ou social da
criança deve ser considerada uma violação de direitos.
A violência pode se
manifestar de diversas formas. A violência física envolve
agressões que causam dor ou danos ao corpo. A violência psicológica
inclui atitudes como humilhações, ameaças, discriminação e rejeição, além da
exposição da criança a situações de violência no ambiente familiar, afetando
diretamente seu desenvolvimento emocional. Já a violência sexual
abrange qualquer situação em que a criança seja forçada a participar ou
presenciar atos de natureza sexual, seja de forma presencial ou virtual,
incluindo abuso e exploração.
Além disso, a violência institucional ocorre quando há falhas ou condutas inadequadas por parte de profissionais ou instituições que deveriam proteger a criança, prejudicando seu atendimento. A violência patrimonial refere-se à retenção ou destruição de bens e recursos essenciais à sua sobrevivência e bem-estar.
A negligência, por sua
vez, caracteriza-se pela ausência de cuidados básicos, como alimentação,
proteção e atenção, comprometendo o desenvolvimento saudável. Por fim, o trabalho
infantil é considerado uma forma de violação quando realizado
antes dos 16 anos, exceto na condição de aprendiz a partir dos 14, pois pode
interferir no desenvolvimento físico, emocional e educacional.
Dessa
forma, a proteção
integral da criança exige atenção a todas essas formas de
violência, reforçando a responsabilidade da família, da sociedade e do Estado
em garantir um ambiente seguro, digno e favorável ao seu pleno desenvolvimento.
É
importante considerar que a violência contra meninas e meninos pode iniciar
ainda na primeira infância e se estender ao longo da adolescência, conforme
destaca a UNICEF (2022). Nessa fase, as
crianças são especialmente vulneráveis devido à sua dependência de cuidadores
adultos e à limitação de interações sociais fora do ambiente familiar (UNICEF,
2017).
Além disso, nos
primeiros anos de vida, as crianças ainda estão em processo de desenvolvimento
da linguagem, o que pode dificultar a comunicação de situações de violência. A
exposição precoce a essas experiências pode gerar impactos negativos duradouros
no desenvolvimento cerebral e emocional, conforme apontam estudos na área do
desenvolvimento infantil (Bick & Nelson, 2016).
O texto apresenta quatro estilos parentais e suas principais características. Os pais permissivos são afetuosos, porém pouco exigentes, não estabelecem limites claros nem orientam o comportamento da criança, o que pode resultar em baixa disciplina e presença pouco efetiva na educação. Já os pais ausentes ou negligentes demonstram pouco envolvimento, afeto e responsabilidade, não atendendo adequadamente às necessidades emocionais e de cuidado da criança.
Os
pais autoritários
são rígidos, controladores e pouco afetivos, utilizam punições e impõem regras
sem diálogo, baseando a relação no poder e no medo. Em contraste, os pais autoritativos
ou participativos são considerados o modelo mais adequado, pois
combinam afeto com limites claros, incentivam o diálogo, respeitam a
individualidade da criança e promovem seu desenvolvimento com equilíbrio entre
orientação, apoio emocional e autonomia.
Práticas violentas
O uso de práticas violentas na educação dos filhos está relacionado a diversos fatores que influenciam a parentalidade, como aspectos históricos, biológicos, culturais, a configuração familiar e as condições socioeconômicas, conforme apontam estudos citados pelo UNICEF.
Em muitos casos, a violência não é uma
escolha consciente de disciplina, mas resulta de sentimentos de raiva e
frustração dos pais, além da falta de conhecimento sobre os impactos negativos
dessas práticas e sobre alternativas educativas mais adequadas.
Pesquisas indicam que pais que vivenciaram experiências adversas na infância, como punições físicas, tendem a reproduzir esses comportamentos com seus próprios filhos, caracterizando um ciclo intergeracional da violência.
No entanto, esse ciclo
pode ser interrompido quando os pais têm acesso a programas de orientação
parental, que contribuem para o desenvolvimento de práticas mais saudáveis e
positivas.
Muitos
pais demonstram interesse em transformar a forma como educam seus filhos, mas
necessitam de apoio e orientação qualificada. Nesse sentido, é fundamental que
os profissionais compreendam os fatores que influenciam essas práticas,
evitando julgamentos e estabelecendo uma relação de acolhimento, capaz de
promover mudanças significativas na forma de cuidar e educar as crianças.
Conheça AQUI NESTE LINK o Letramento Emocional Familiar (LEF) para adultos
Estratégias para orientação parental
As estratégias positivas de disciplina para cuidar e educar crianças na primeira infância baseiam-se nos princípios da parentalidade positiva, que prioriza a construção de um relacionamento saudável, respeitoso e empático entre adultos e crianças, conforme orienta o UNICEF.
Nesse contexto,
disciplinar
não significa punir, mas orientar, ensinar e apoiar
a criança no processo de aprendizagem de regras, valores e comportamentos
adequados, considerando suas necessidades, seu estágio de desenvolvimento e a
dinâmica familiar.
A disciplina positiva envolve o uso de estratégias que respeitam a criança e excluem qualquer forma de violência, seja física ou verbal. Essas práticas auxiliam no desenvolvimento do autocontrole, na compreensão das consequências das próprias ações e na capacidade de fazer escolhas.
Durante a primeira infância, período em que se
iniciam o desenvolvimento social e emocional, a criança começa a compreender
quem é, a reconhecer e expressar emoções e a aprender a se relacionar com
outras pessoas. Quando estimuladas de forma adequada, essas habilidades
contribuem para relações mais saudáveis ao longo da vida.
É importante compreender que disciplina e punição são conceitos distintos. A punição está associada ao uso do medo, pode causar danos físicos e emocionais e tende a gerar apenas mudanças temporárias de comportamento, sem promover aprendizado real.
Além disso, não oferece alternativas de ação e pode enfraquecer o vínculo entre pais e filhos. Por outro lado, a disciplina tem como objetivo ensinar comportamentos aceitáveis de maneira respeitosa, sem causar sofrimento. Ela se baseia em limites claros, expectativas realistas, consistência nas ações dos cuidadores e na construção de uma relação de confiança e respeito.
Dessa forma, favorece mudanças duradouras no comportamento da
criança, promovendo cooperação e desenvolvimento saudável.
Conheça algumas
estratégias para disciplinar a criança de forma positiva
Definir expectativas claras: É importante dizer exatamente o que se espera da criança, em vez de
apenas proibir comportamentos. Instruções objetivas e com explicação aumentam a
compreensão e a chance de a criança agir adequadamente.
Estabelecer expectativas
realistas: As expectativas devem ser
compatíveis com a idade e o desenvolvimento da criança. Muitos comportamentos
desafiadores, como birras, são naturais, pois a criança ainda está aprendendo a
lidar com emoções.
Ensinar a identificar e nomear emoções:
Os cuidadores devem ajudar a criança a reconhecer o
que sente e entender suas emoções, sem julgamentos. Também é importante
orientá-la sobre formas adequadas de lidar com esses sentimentos.
Fazer pausas para acalmar: Em situações de tensão, é necessário interromper o momento para que
todos se acalmem. Esse tempo serve para recuperar o equilíbrio emocional,
podendo incluir estratégias como respiração, e não deve ser usado como punição.
Orientar pelo exemplo: A criança aprende observando os adultos. Por isso, pais e cuidadores
devem demonstrar, em suas atitudes, os comportamentos que desejam ensinar.
Distrair e redirecionar com
criatividade: Desviar a atenção da criança para
outra atividade pode ajudar a interromper comportamentos inadequados, além de
prevenir situações difíceis de forma respeitosa.
Estabelecer consequências com
calma: As consequências devem ser explicadas de forma
tranquila, sendo proporcionais e relacionadas ao comportamento. O objetivo é
ensinar responsabilidade e compreensão, não gerar medo ou punição.
Elogiar e valorizar
comportamentos positivos: Reconhecer atitudes adequadas
fortalece a autoestima da criança e incentiva a repetição desses
comportamentos. O elogio deve ser específico e considerar o esforço, não apenas
o resultado.
Outra
dica muito útil é o modelo CONFORTE. Apresentado pelo UNICEF, reúne um conjunto de estratégias práticas
que podem ser aplicadas no cotidiano para promover uma educação baseada na
disciplina positiva e no fortalecimento do vínculo entre pais e filhos. Cada
elemento do modelo representa uma ação que contribui para criar um ambiente
acolhedor, seguro e propício ao desenvolvimento emocional da criança.
O primeiro passo é conversar com a criança, buscando compreender o que aconteceu em determinada situação, em vez de apenas corrigir o comportamento.
Em seguida, é fundamental observar a criança, identificando em quais momentos ela apresenta mais dificuldades para lidar com suas emoções e quais sentimentos estão em processo de desenvolvimento.
Paralelamente, o adulto também deve voltar o olhar para si,
reconhecendo suas próprias emoções durante as interações, refletindo sobre o
que sente, quais situações geram maior dificuldade e quais comportamentos
despertam reações como a raiva.
Nesse processo, é essencial fazer uma pausa, permitindo que tanto o adulto quanto a criança se acalmem antes de agir.
Outro aspecto importante é organizar o ambiente, garantindo segurança e ao mesmo tempo possibilitando que a criança explore o espaço de forma adequada, prevenindo situações de risco e comportamentos desafiadores.
Quando necessário, o cuidador pode redirecionar a
atenção da criança, conduzindo-a para outra atividade ou foco,
de maneira respeitosa.
O modelo também destaca a importância de reservar tempo de qualidade entre adulto e criança, com momentos exclusivos de interação, como brincar, cantar ou ler, sem distrações, fortalecendo o vínculo afetivo.
Por fim,
enfatiza-se a necessidade de ensinar sobre as emoções,
ajudando a criança a identificar, nomear e lidar com seus sentimentos, sempre
por meio do exemplo dos próprios adultos, que devem demonstrar formas saudáveis
e respeitosas de expressão emocional.
Dessa
forma, o modelo CONFORTE orienta práticas que vão além da correção de
comportamentos, promovendo o desenvolvimento emocional, a construção de
relações positivas e a educação sem violência.
Conectar-se com a criança é um elemento fundamental na parentalidade positiva, pois envolve brincar, interagir e se relacionar de forma calorosa e respeitosa, garantindo que a criança receba atenção, apoio e orientação. Essas interações são essenciais para que ela se sinta valorizada, fortalecendo sua autoestima e promovendo o desenvolvimento da autonomia.
Nesse contexto, a regulação emocional e o bem-estar do cuidador exercem papel central no desenvolvimento infantil, como destaca o UNICEF. As interações cotidianas entre cuidador e criança influenciam diretamente não apenas a sobrevivência, mas também o potencial de desenvolvimento e a capacidade da criança de prosperar ao longo da vida.
O
desenvolvimento de forma saudável requer que os cuidadores
atendam às necessidades básicas da criança, garantindo sua saúde e bem-estar,
estejam emocionalmente presentes e disponíveis, demonstrando atenção e
sensibilidade, e atuem como uma referência de segurança, mantendo estabilidade
e consistência nas relações.
Para desempenhar esse papel, os cuidadores precisam estar motivados, bem informados e contar com recursos adequados para cuidar tanto de si mesmos quanto da criança.
Estudos indicam que o bem-estar e a saúde mental do cuidador impactam diretamente a qualidade do cuidado oferecido, podendo influenciar o desenvolvimento infantil desde a gestação e ao longo de toda a infância.
Intervenções que promovem práticas parentais positivas, especialmente aquelas voltadas à regulação emocional e comportamental dos cuidadores, contribuem para a prevenção de problemas de comportamento nas crianças ao longo do tempo e são fundamentais para evitar situações de violência.
Adultos desregulados e violência
Quando os adultos não conseguem regular
suas emoções, tornam-se mais propensos a recorrer a práticas inadequadas, como
castigos, ameaças e punições, inclusive físicas.
Diante disso, torna-se essencial que programas de orientação parental ofereçam suporte aos cuidadores, auxiliando-os no desenvolvimento de estratégias para lidar com suas emoções durante as interações com as crianças.
Além disso, é importante
que profissionais que acompanham famílias ofereçam orientações contínuas e
facilitem o acesso a serviços essenciais, como saúde, assistência social e
educação, fortalecendo as condições necessárias para o cuidado integral e o
desenvolvimento saudável da criança.










Comentários
Postar um comentário