Adultocentrismo: quando o mundo emocional do adulto sufoca a infância

 Confira aqui a série de artigos sobre Letramento Emocional Familiar (LEF): para adultos 

Por Solange Perpin* 

 

O adultocentrismo é um conceito utilizado nas áreas da sociologia da infância, da psicologia e da educação para descrever uma forma de organização social em que a perspectiva, as necessidades e os interesses dos adultos são considerados mais importantes do que os das crianças. Nesse modelo, a infância é vista como uma fase inferior da vida, em que a criança deve adaptar-se completamente às expectativas e conveniências dos adultos.

Essa lógica aparece com frequência no cotidiano familiar quando o comportamento infantil é interpretado apenas a partir da comodidade do adulto. Em vez de compreender as necessidades próprias do desenvolvimento infantil — como brincar, explorar, perguntar e expressar emoções — o adulto passa a exigir silêncio, controle e obediência imediata.

O resultado é que comportamentos naturais da infância passam a ser tratados como problemas, enquanto as dificuldades emocionais do adulto permanecem invisíveis ou naturalizadas.

 A infância interpretada como incômodo

Em contextos marcados pelo adultocentrismo, é comum que a criança seja vista como alguém que “atrapalha”, “dá trabalho” ou “tira a paz dos adultos”. Frases como:

·        “Não me incomoda agora.”

·        “Vai brincar sozinho.”

·        “Fica quieto, quero ver TV.”

·        “Criança tem que saber o seu lugar.”

Essas situações revelam uma expectativa implícita de que a criança se adapte completamente ao ritmo emocional e às necessidades dos adultos.

Entretanto, a infância é justamente o período em que a criança necessita de interação, atenção e mediação emocional para aprender a compreender o mundo e a si mesma.

Quando essas necessidades são ignoradas, a criança pode internalizar a ideia de que sua presença é inconveniente ou indesejada, o que afeta diretamente a construção da autoestima e da segurança emocional.

Quando a autoridade substitui o diálogo

Outro traço comum do adultocentrismo é a crença de que a autoridade adulta não deve ser questionada. Nesse contexto, o diálogo é frequentemente substituído por ordens diretas e justificativas autoritárias, como:

·        “Porque eu mandei.”

·        “Aqui quem manda sou eu.”

·        “Criança não tem que opinar.”

Esse tipo de relação privilegia a obediência imediata, mas não promove necessariamente aprendizagem moral ou compreensão das regras. Ou seja, isso não é educar!  A criança pode obedecer por medo da punição, mas não desenvolve autonomia ou senso crítico.

Do ponto de vista educacional, educar é diferente de apenas controlar o comportamento. A educação envolve explicar, orientar, dialogar e ajudar a criança a compreender as consequências de suas ações. 

Não tem problema o adulto não saber exatamente como fazer, o problema é não querer aprender e repetir: "eu sou assim mesmo", "eu sou nervoso", "eu sou ansioso", "eu... eu... eu...". Se teve filhos está na hora de amadurecer emocionalmente e aprender a organizar suas emoções para educar crianças. 

A intolerância emocional dos adultos

O adultocentrismo também se manifesta na dificuldade de muitos adultos em tolerar emoções infantis intensas. Choro, frustração, medo ou irritação são experiências comuns na infância, pois a criança ainda está aprendendo a regular seus sentimentos.

Entretanto, em famílias com baixa alfabetização emocional, essas manifestações são frequentemente tratadas como exagero ou desobediência. Frases como:

·        “Isso é drama.”

·        “Para de chorar agora.”

·        “Engole esse choro.”

Demonstram uma tentativa de silenciar a emoção da criança, em vez de ajudá-la a compreendê-la.

A validação emocional — isto é, reconhecer e nomear os sentimentos da criança — é fundamental para o desenvolvimento da autorregulação emocional. 

 A infância como etapa de aprendizagem, não de submissão

A infância é um período de intensa aprendizagem emocional, social e cognitiva. Crianças estão constantemente experimentando limites, explorando o ambiente e testando formas de interação com o mundo.

Quando os adultos interpretam essas experiências como desobediência ou desafio à autoridade, podem responder com irritação, punição ou distanciamento afetivo. No entanto, muitos desses comportamentos são simplesmente parte do processo de desenvolvimento infantil.

Por isso, abordagens contemporâneas de educação parental defendem que o papel do adulto não é apenas exigir obediência, mas acompanhar e orientar o desenvolvimento da criança, oferecendo segurança emocional e limites claros ao mesmo tempo.

Superando o adultocentrismo nas relações familiares

Superar o adultocentrismo não significa eliminar a autoridade dos adultos ou permitir que crianças façam tudo o que desejam. Significa, sobretudo, reconhecer a criança como sujeito de direitos e de emoções, cuja experiência de mundo merece escuta e consideração.

Essa perspectiva está alinhada aos princípios do Estatuto da Criança e doAdolescente, que estabelece que crianças e adolescentes devem ser tratados com respeito e dignidade, sendo protegidos de práticas violentas ou humilhantes.

Quando os adultos desenvolvem maior consciência emocional e compreendem melhor as necessidades da infância, torna-se possível construir relações familiares mais equilibradas, nas quais autoridade e afeto coexistem.

Nesse modelo, educar deixa de ser um exercício de controle e passa a ser um processo de formação humana, no qual adultos e crianças aprendem juntos a lidar com emoções, limites e convivência.

  


*Solange Perpin investiga como as linguagens, imagens, narrativas familiares e sociais moldam emoções, conflitos e formas de convivência. Analista de narrativas, mediadora de conflitos e estrategista em comunicação assertiva, atua no desenvolvimento de consciência emocional e na reconstrução de diálogos. AH/SD (Altas Habilidades/Superdotação) e 2E (dupla excepcionalidade), é psicodramatista, educadora emocional, arteterapeuta infantil, escritora, jornalista científica, advogada, com mestrado em Bioética, ou outras formações multidisciplinares em prol de uma sociedade mais consciente, criativa e inclusiva.

 

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"Educar crianças começa por alfabetizar emocionalmente os adultos".

Solange Perpin

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