O analfabetismo emocional de adultos e o ECA
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Emocional Familiar (LEF): para adultos
Por Solange Perpin*
Adultos imaturos acabam descumprindo a lei
O conceito de analfabetismo emocional familiar refere-se à dificuldade ou incapacidade de
reconhecer, compreender e manejar emoções no ambiente familiar, especialmente
nas relações entre adultos e crianças. Nesses contextos, sentimentos como
frustração, raiva, medo ou insegurança não são elaborados por meio do diálogo e
da consciência emocional, mas acabam sendo expressos por meio de
comportamentos autoritários, violência simbólica ou punições físicas.
Esse fenômeno ajuda a compreender por que, historicamente, práticas de educação
baseadas no medo, na humilhação ou no castigo físico foram naturalizadas em
muitas famílias. Muitas vezes, essas práticas não surgem apenas da
intenção de ferir a criança, mas da ausência de repertório emocional e educativo por parte dos adultos
responsáveis. Em outras
palavras, quando faltam instrumentos de comunicação afetiva, autocontrole
emocional e escuta empática, a disciplina tende a assumir formas violentas ou
degradantes.
Nesse sentido, o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) estabelece
um marco fundamental ao reconhecer a criança e o adolescente como sujeitos de
direitos. O artigo 17 afirma que o direito ao respeito implica a proteção da
integridade física, psíquica e moral, bem como da identidade, da autonomia e
das crenças da criança. Esse princípio rompe com a antiga visão de que a
criança seria propriedade dos pais e, portanto, submetida à autoridade absoluta
dos adultos.
O artigo 18 reforça que é dever de toda a sociedade proteger a dignidade
de crianças e adolescentes, colocando-os a salvo de tratamentos desumanos,
violentos ou constrangedores. Essa perspectiva amplia a responsabilidade para
além da família, envolvendo também instituições sociais, educacionais e o
próprio Estado.
A ampliação dessa proteção ocorreu com a criação da Lei nº
13.010, que acrescentou ao ECA o artigo 18-A. Essa legislação estabelece
que crianças e adolescentes têm o direito de ser educados sem o uso de castigo
físico ou tratamento cruel ou degradante. A lei define como castigo físico
qualquer ação disciplinar que utilize força física e provoque sofrimento ou
lesão, e considera tratamento degradante qualquer conduta que humilhe, ameace
gravemente ou ridicularize a criança.
Do ponto de vista psicológico e educacional, essas práticas podem
produzir efeitos profundos no desenvolvimento emocional infantil. Pesquisas em
áreas como a psicologia do desenvolvimento e a educação apontam que
experiências repetidas de humilhação, medo ou violência podem gerar
insegurança, baixa autoestima, dificuldade de autorregulação emocional e
reprodução de padrões violentos nas relações futuras.
O analfabetismo emocional familiar, portanto, não se limita à ausência
de afeto, mas inclui também a incapacidade de reconhecer a criança como sujeito
emocional. Quando emoções
infantis são ignoradas, ridicularizadas ou reprimidas, a criança aprende que
seus sentimentos não têm legitimidade. Isso pode comprometer a construção da
identidade, a confiança nas relações e a capacidade de desenvolver empatia.
Nesse contexto, as medidas previstas no artigo 18-B do ECA buscam não
apenas responsabilizar os adultos, mas também promover orientação e
transformação das práticas educativas familiares. Encaminhamentos para programas
de orientação parental, acompanhamento psicológico ou programas de
proteção à família têm como objetivo ampliar o repertório emocional e educativo
dos responsáveis, prevenindo a repetição de comportamentos violentos.
Assim, a legislação brasileira reconhece que a proteção da infância
envolve não apenas impedir a violência explícita, mas também promover ambientes
familiares capazes de oferecer segurança emocional, respeito e diálogo. Combater
o analfabetismo emocional nas famílias torna-se, portanto, um passo fundamental
para a construção de relações mais saudáveis e para o pleno desenvolvimento das
crianças e adolescentes.
*Solange Perpin investiga como as narrativas familiares e sociais moldam emoções, conflitos e formas de convivência. Analista de narrativas, mediadora de conflitos e estrategista em comunicação assertiva, atua no desenvolvimento de consciência emocional e na reconstrução de diálogos. AH/SD (Altas Habilidades/Superdotação) e 2E (dupla excepcionalidade), é psicodramatista, educadora emocional, arteterapeuta infantil, escritora, jornalista científica, advogada, com mestrado em Bioética, ou outras formações multidisciplinares.
Use o LEF e respeite a LEI
"Educar crianças começa por alfabetizar emocionalmente os adultos".
Solange Perpin
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